Níveis do Modelo de Maturidade META: como evoluir da adoção ágil à excelência organizacional

Após compreender o Modelo de Maturidade META como uma estrutura para sustentar a transformação ágil, o passo seguinte é entender como a maturidade evolui ao longo do tempo. Diferentemente de abordagens prescritivas, o META descreve padrões observáveis de comportamento, decisão e liderança, organizados em níveis de maturidade.

Esses níveis não funcionam como rótulos. Eles oferecem diagnóstico situacional e direção evolutiva, permitindo que a organização decida conscientemente onde investir energia e desenvolvimento.

Maturidade organizacional como processo evolutivo

Modelos de maturidade clássicos (como CMMI) já indicavam que organizações evoluem por estágios previsíveis, nos quais práticas só se sustentam quando o sistema está preparado. O META aplica esse princípio à transformação ágil, incorporando comportamento e decisão como variáveis centrais.

Essa visão é coerente com a teoria de sistemas abertos, segundo a qual organizações aprendem por adaptação progressiva, não por saltos artificiais (Senge, 1990).

🔗 Peter Senge, The Fifth Discipline
https://www.penguinrandomhouse.com/books/227534/the-fifth-discipline-by-peter-m-senge/

Visão geral dos níveis do Modelo META

Conforme descrito no material oficial do modelo, o META organiza a maturidade em níveis evolutivos, nos quais mudam:

  • o padrão de tomada de decisão,
  • o papel da liderança,
  • o comportamento predominante,
  • a relação com erro e aprendizado,
  • a coerência entre discurso e prática.

A seguir, descrevemos cada nível de forma sintética e técnica.


Nível 1 — Inicial / Reativo

No nível inicial, a organização apresenta respostas predominantemente reativas às pressões do ambiente. A agilidade costuma ser adotada como tentativa de resolver problemas imediatos de prazo ou produtividade.

Características observáveis:

  • decisões centralizadas e urgentes;
  • liderança orientada ao controle;
  • medo do erro e baixa segurança psicológica;
  • adoção superficial de práticas ágeis.

Nesse estágio, a agilidade é percebida como ferramenta de cobrança. Como consequência, frameworks geram resistência e desgaste.

Esse padrão é consistente com ambientes de alta ansiedade organizacional, nos quais decisões são tomadas para aliviar tensão, não para gerar aprendizado (Kahneman, 2011).

🔗 Daniel Kahneman, Thinking, Fast and Slow
https://www.penguinrandomhouse.com/books/208568/thinking-fast-and-slow-by-daniel-kahneman/


Nível 2 — Estruturado / Orientado a Práticas

Aqui, a organização passa a estruturar processos e rituais ágeis de forma mais consistente. Há maior clareza operacional, embora o comportamento ainda não acompanhe totalmente o método.

Características observáveis:

  • papéis ágeis formalizados;
  • rituais executados com regularidade;
  • indicadores de performance definidos;
  • liderança ainda intervencionista.

Apesar dos ganhos operacionais, decisões estratégicas continuam concentradas. O sistema melhora, mas a maturidade permanece limitada pela liderança.

Esse fenômeno é descrito por Edgar Schein como incongruência cultural: práticas modernas operando sobre pressupostos antigos.

🔗 Edgar Schein, Organizational Culture and Leadership
https://mitpress.mit.edu/9781119212041/organizational-culture-and-leadership/


Nível 3 — Integrado / Comportamental

No nível integrado, ocorre um salto qualitativo: comportamento e sistema começam a se alinhar. A liderança passa a atuar de forma menos reativa, e a tomada de decisão se distribui com mais clareza.

Características observáveis:

  • maior segurança psicológica;
  • decisões mais próximas do problema;
  • erro tratado como fonte de aprendizado;
  • liderança consciente do impacto do próprio comportamento.

Esse nível marca a transição da agilidade como prática para a agilidade como capacidade organizacional emergente.

A literatura sobre liderança adaptativa sustenta essa mudança como essencial para lidar com problemas complexos (Heifetz, 1994).

🔗 Ronald Heifetz, Leadership Without Easy Answers
https://www.hks.harvard.edu/publications/leadership-without-easy-answers


Nível 4 — Adaptativo / Sistêmico

Aqui, a organização passa a operar como um sistema adaptativo. A agilidade não depende mais de pessoas específicas ou de um framework dominante.

Características observáveis:

  • decisões orientadas por princípios;
  • liderança como elemento sistêmico;
  • alta coerência entre discurso e prática;
  • aprendizado contínuo incorporado ao sistema.

Nesse estágio, a organização demonstra maturidade para operar sob incerteza, sustentando desempenho sem recorrer ao controle excessivo.

Esse padrão é compatível com pesquisas sobre segurança psicológica e aprendizagem organizacional (Edmondson, 2018).

🔗 Amy Edmondson, The Fearless Organization
https://hbr.org/2018/11/what-is-psychological-safety


Nível 5 — Excelência / Evolutivo

O nível mais avançado do META representa excelência adaptativa. A organização aprende de forma contínua e se reinventa sem perder identidade.

Características observáveis:

  • liderança distribuída e madura;
  • decisões estratégicas com visão sistêmica;
  • cultura de aprendizado profundo;
  • agilidade como identidade organizacional.

Neste nível, a transformação ágil deixa de ser uma iniciativa e passa a ser uma propriedade estrutural da organização.


Por que os níveis do META não são um checklist

Um erro comum ao usar modelos de maturidade é tratá-los como metas a serem “atingidas”. O META evita esse risco ao enfatizar consciência evolutiva, não certificação.

Cada nível indica:

  • limites atuais do sistema,
  • riscos de aceleração artificial,
  • prioridades reais de desenvolvimento.

Avançar de nível sem maturidade gera regressão. Sustentar evolução exige tempo, liderança e decisão.


Considerações finais

Os níveis do Modelo de Maturidade META tornam visível aquilo que normalmente fica implícito: o estágio real da organização em termos de decisão, liderança e comportamento.

Transformação ágil sustentável não depende de velocidade.
Depende de maturidade.

E maturidade não se impõe.
Ela se desenvolve.

Alexander Terra Antunes
Doutorando em Psicologia Organizacional | Mestre em Gestão
Especialista em Liderança, Agilidade e Neurociência Aplicada
Fundador da NeuroAgile

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