Há profissionais que conseguem explicar em detalhes os negócios que construíram, os resultados que alcançaram e os próximos projetos. Mas, quando a pergunta muda para “quem você quer ser nos próximos dez anos?”, a resposta nem sempre aparece com a mesma facilidade.
Essa dificuldade abre uma questão relevante para quem lidera pessoas ou conduz a própria carreira: até que ponto nossos objetivos representam escolhas conscientes e até que ponto apenas reproduzem a rotina, as expectativas dos outros e experiências anteriores?
Foi para estimular essa reflexão que escrevi Canvas Pessoal: Desenvolvendo sua Carreira e sua Vida, publicado em 2020. O livro organiza o planejamento individual em um quadro visual que conecta identidade, vida pessoal, carreira, recursos, dificuldades e objetivos.
O que é Canvas Pessoal?
O Canvas Pessoal é uma ferramenta visual de autoconhecimento e planejamento de vida e carreira. Em vez de começar estabelecendo metas soltas, o método convida a pessoa a examinar missão, visão, valores, papéis da vida, oportunidades, apoiadores, bloqueadores de sonhos, habilidades, objetivos e recursos financeiros.
O ponto importante é a conexão entre as respostas. Uma pessoa pode declarar que a família é sua prioridade, por exemplo, e ao mesmo tempo perceber que dedica quase todo o tempo ao trabalho. Nesse caso, não basta registrar o valor: precisamos investigar quais escolhas sustentam ou contradizem aquela prioridade.
O livro também propõe trabalhar com post-its para que cada resposta possa ser reconsiderada. Não há sequência obrigatória. Quando uma questão é difícil, é possível avançar para outro campo e retomá-la com mais repertório.
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Por que planejar a carreira sem observar a identidade costuma ser insuficiente?
Imagine alguém que decidiu abrir uma empresa, assumir um cargo de liderança ou iniciar uma nova especialização. Essas metas parecem claras, mas não respondem necessariamente a outras perguntas: que vida essa pessoa espera construir? Que relações deseja preservar? Que comportamentos repetidos têm dificultado suas escolhas?
No desenvolvimento de lideranças, observo que é útil diferenciar três níveis de reflexão: o que faço, como costumo agir e o que considero importante. O primeiro descreve tarefas e resultados. O segundo examina comportamentos em situações reais. O terceiro considera valores e prioridades.
O Canvas pode tornar essas dimensões visíveis. Ele não fornece um diagnóstico psicológico nem garante que determinada meta será alcançada. Seu benefício proposto é estruturar a reflexão e ajudar a formular decisões que possam ser testadas no cotidiano.
Como a personalidade entra nessa análise?
A psicologia da personalidade oferece uma contribuição importante a esse processo. O modelo Big Five descreve cinco grandes dimensões de características: abertura à experiência, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo (ou emocionalidade negativa, em algumas nomenclaturas). O estudo de Soto e John (2017) apresenta o BFI-2, instrumento que organiza cinco domínios em 15 facetas.
Essas dimensões não devem ser tratadas como rótulos deterministas. Uma tendência comportamental ajuda a formular hipóteses sobre como a pessoa costuma agir, mas não permite deduzir, isoladamente, sua competência ou seu futuro. Além disso, as características da personalidade podem apresentar mudanças ao longo da vida, como discutem Roberts, Walton e Viechtbauer (2006).
Na prática, o Canvas e uma avaliação de personalidade respondem a perguntas distintas. O Canvas ajuda a organizar o que a pessoa deseja e quais condições precisa considerar. Um instrumento de personalidade adequadamente aplicado pode contribuir para compreender tendências de comportamento. O encontro entre essas perspectivas pode enriquecer o diálogo de desenvolvimento, desde que não se confunda autorreflexão com mensuração psicológica.
O que o IMA acrescenta ao planejamento pessoal?
Na NeuroAgile, desenvolvi o IMA — Intelecto, Moralidade e Ambiente como um modelo autoral para refletir sobre autonomia. A proposta é observar três aspectos associados à capacidade de agir com responsabilidade em situações concretas:
- Intelecto: compreensão da situação, repertório e capacidade de avaliar alternativas.
- Moralidade: responsabilidade, critérios éticos e consideração das consequências das próprias decisões.
- Ambiente: condições, limites, recursos, relações e estruturas que podem favorecer ou restringir a autonomia.
É importante diferenciar as naturezas dos modelos: Big Five é uma estrutura de personalidade amplamente pesquisada; IMA é uma proposta de aplicação em desenvolvimento e liderança, e o Canvas Pessoal é uma ferramenta autoral de reflexão e planejamento. Não são instrumentos intercambiáveis nem há justificativa para tratá-los como uma escala única.
Quando utilizados de maneira complementar, podem orientar perguntas mais precisas: o que eu desejo? Que padrões de comportamento observo? O que sei fazer? Quais responsabilidades preciso assumir? E que condições do ambiente preciso modificar ou negociar?
Como preencher o Canvas Pessoal sem ficar travado?
O primeiro passo é não procurar frases perfeitas. Escolha um campo mais fácil, escreva uma resposta inicial e busque uma experiência concreta que a sustente.
Se você escreveu “integridade” nos valores, pergunte-se quando precisou tomar uma decisão difícil para respeitar esse princípio. Se identificou “falta de tempo” como bloqueador, procure distinguir indisponibilidade objetiva, prioridades concorrentes e escolhas que ainda podem ser revistas.
O guia complementar de preenchimento, preparado para acompanhar o livro, oferece perguntas para cada campo, critérios para revisar as respostas e alternativas para continuar mesmo quando você não souber o que escrever.
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Do autoconhecimento à decisão: o papel da mentoria
Preencher um quadro é um início. A parte mais exigente geralmente vem depois: reconhecer contradições, estabelecer prioridades e transformar reflexões em decisões observáveis.
Em um processo de mentoria, essas respostas podem ser exploradas com perguntas, análise de experiências e compromissos práticos. Na consultoria organizacional, reflexões semelhantes ajudam a examinar o desenvolvimento de lideranças, os limites da autonomia e as condições de trabalho que influenciam a execução.
Uma pergunta final que proponho é simples: se você alcançar todos os seus objetivos profissionais, mas comprometer os valores e as relações que considera essenciais, continuará chamando isso de sucesso?
Se a resposta não for clara, talvez seja uma boa oportunidade para rever seu Canvas antes de definir novas metas.
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Referências e materiais
- ANTUNES, Alexander Terra. Canvas Pessoal: Desenvolvendo sua Carreira e sua Vida. 1. ed. 2020. Livro, quadro e guia de preenchimento.
- SOTO, C. J.; JOHN, O. P. The next Big Five Inventory (BFI-2). Journal of Personality and Social Psychology, 2017. DOI.
- ROBERTS, B. W.; WALTON, K. E.; VIECHTBAUER, W. Patterns of mean-level change in personality traits across the life course. Psychological Bulletin, 2006. DOI.